Fatores a serem considerados no planejamento de iniciativas de e-business.Universidade Presbiteriana Mackenzie. Abstract.
FATORES
A SEREM CONSIDERADOS NO PLANEJAMENTO DE INICIATIVAS DE E-BUSINESS
Vivaldo José Breternitz
Mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie
Professor da mesma Universidade e consultor de
empresas
vjbreternitz@mackenzie.com.br
RESUMO
A grande maioria das empresas vem se sentindo compelida a adotar iniciativas na área de e-Business, não só em
função de movimentos efetuados por concorrentes ou parceiros de negócios,
mas também pela extensa cobertura dada ao mesmo pela mídia. Organizações de
menor porte, que não dispõem de quadros técnicos especializados, têm
dificuldades no tratamento do assunto, quer para planejamento, quer para
simples monitoramento do mercado enquanto aguardam o momento adequado para
tomarem suas iniciativas na área. Em função deste cenário
pretende-se discutir neste trabalho alguns fatores a serem
considerados no planejamento das iniciativas de e-Business.
ABSTRACT
The great
majority of the companies comes itself being compelled to adopt initiatives in
the e-Business area, not only in function of movements made by businesses
contestants or partners, but also for the extensive covering given to it by the media. Small organizations, that
don't have specialized technical staff, have difficulties in the subject
treatment, even for planning, or simple market monitoring while they wait the moment to take their initiatives in the
area. In function of this scenery this paper intends to discuss some
issues to be considered in the
e-Business initiatives planning.
E-business ou
"negócio eletrônico" pode ser entendido como o uso da Interrnet por uma organização no sentido de alterar
seus processos com o objetivo de aumentar o alcance e a riqueza das relações com clientes, empregados,
fornecedores, parceiros e comunidade.
Embora seja um tanto quanto difícil precisar o que
é e o que não é e-Business, observa-se que muitas empresas estão tomando
iniciativas que poderiam ser classificadas como tal em diversas áreas, dentre as quais destacaríamos:
-
Automação da força de vendas (sales
force automation), viabilizando a
troca de informações por meios
eletrônicos, otimizando e acelerando processos de forma a permitir o aproveitamento de “janelas de mercado”,
maior suporte ao pessoal de vendas que atua no campo e maior integração entre unidades distantes.
-
Gerenciamento do
conhecimento (knowledge management), tudo aquilo que se refere ao gerenciamento de
expertise, know-how, capital intelectual, etc., no âmbito de uma dada
organização, procurando capturar e disponibilizar para reuso as habilidades,
experiências e insights de seus
membros, permitindo o compartilhamento e a disseminação das
informações que constituem o capital intelectual da organização (BRETERNITZ,
2001).
-
E-collaboration, que é o trabalho conjunto no âmbito da
organização utilizando uma intranet e também com parceiros e fornecedores estratégicos
através de uma extranet, de forma a possibilitar melhor planejamento e
coordenação, tomada de decisão compartilhada, inovação nos processos e práticas
do negócio etc.
-
E-services, ou fornecimento aos clientes de
suporte técnico e comercial além de aconselhamento online sobre produtos e serviços (pré-venda e pós-venda).
Possibilita redução de custos e agilidade no suporte aos clientes, prática de cross-selling (venda cruzada) e fidelização dos clientes. A oferta de auto-serviço, ou
auto-atendimento, beneficia o cliente que passa a ter maior controle sobre o
processo, ampliando sua autonomia e poder de decisão, além de beneficiar a
empresa proporcionando redução de custos operacionais, entre outras coisas por
transferir ao cliente custos de entrada de dados, telecomunicações, etc;
exemplo típico são as operações bancárias via Internet (netbaking).
-
Comércio Eletrônico (e-commerce): é a compra e venda de
produtos e serviços pela Internet, podendo ser classificado como do tipo
“Business to Business (B2B, negócios entre empresas), “Business to Consumer
(B2C, compra pelo consumidor final) e outros. Sob esse título pode ser enquadrado também o "e-procurement"
que trata dos processos completos de
aquisição de bens e serviços pela empresa por meios eletrônicos.
-
Gerenciamento da cadeia de suprimentos (supply chain management), que
é o controle do fluxo de
materiais, serviços e informações por toda cadeia de valor. Gera redução de
custos, aumento de velocidade e transparência do processo e redução de
estoques. Note-se que não são claras as fronteiras entre comércio eletrônico, e-services e gerenciamento da cadeia de suprimentos, sendo essas iniciativas aqui mencionadas separadamente para maior
clareza.
-
e-CRM (Customer Relationship
Management), ferramenta de gestão do
relacionamento com os clientes. Possibilita estabelecer relacionamento com os
clientes de forma individual e depois usar as informações coletadas para tratar
clientes diferentes de maneira diferente, ampliando a capacidade da empresa de
entregar produtos e serviços com maior valor agregado (marketing 1 para 1). O intercâmbio entre cliente e empresa torna-se
mutuamente benéfico, uma vez que os clientes oferecem informações em
retribuição aos serviços personalizados que atendem às suas necessidades
individuais.
-
EDI (Electronic Data Interchange), transferência de dados entre empresas
através de redes públicas ou privadas. A adoção de padrões, em especial o
chamado X12 da ANSI, torna essa troca
mais simples de ser implementada. Um
exemplo clássico de aplicação de EDI é aquele em que uma empresa ao invés de enviar
seus pedidos a um fornecedor por meios convencionais, formata-os de acordo com
um padrão como o X12 e o envia através de uma rede; o fornecedor, após receber
os pedidos pode processa-los imediatamente e confirmar data de entrega,
condições, etc., pelos mesmos canais, acelerando e barateando o processo como
um todo.
-
e-Community, a integração de funcionários, clientes,
parceiros e outros membros da comunidade em torno de temas de interesse comum, através de chat, foruns e newsgroups.
Como e-Business é cada vez mais
frequentemente tema tratado pela mídia, muitas companhias sentem-se compelidas
a adotar iniciativas na área. O golpe sofrido recentemente pelas empresas
“pontocom” teve o efeito benéfico de fazer com que muitas empresas passassem a
reavaliar suas prioridades, porém o fato é que a grande maioria delas já percebem a necessidade de abordar o
assunto.
De fato, e-Business vem de alguma forma mudando
todas as indústrias, desde as ligadas à produção agropecuária, geralmente consideradas de pouca
sofisticação, até aquelas da área de alta tecnologia; assim, os dirigentes
devem ao menos monitorar os impactos de e-Business
em seu segmento e em sua empresa em particular, pois embora o ritmo das
mudanças possa variar, certamente elas
ocorrerão. Como sempre acontece em situações de mudança no ambiente tecnológico ou nas técnicas de
gestão, aqueles que mudarem mais cedo correrão maiores riscos, porém poderão
construir vantagens competitivas mais duradouras. No outro extremo estarão
aqueles que não correrão riscos no sentido de investirem equivocadamente, mas
que poderão perder parcela substantiva do mercado.
Neste
cenário ainda persistem muitas dúvidas:
-
O que
podemos fazer?
-
Dentre
as coisas que podemos fazer, quais
devemos fazer?
-
Que
benefícios obteremos e em quanto tempo?
-
Quais
serão os impactos em nossa marca, canais de distribuição, força de vendas?
-
O que
a concorrência está fazendo?
-
Podemos
esperar?
-
Que
ritmo devemos adotar?
-
Quanto
precisamos e/ou podemos investir?
Organizações
de menor porte, que não dispõem de quadros técnicos especializados, têm dificuldades
no tratamento do assunto. Com o objetivo de auxiliar na busca de repostas a
estas e outras questões, pretendemos discutir aqui alguns fatores a serem
considerados no planejamento das iniciativas de e-Business; utilizaremos neste trabalho a expressão “estratégia”
principalmente no sentido apresentado por MINTZBERG (1994): “Estratégia é um
referencial, um guia, para auxiliar os executivos na solução de certos
problemas”.
Inicialmente
é importante reconhecer, como se procurou mostrar acima, que e-Business é um conceito muito amplo,
que afeta praticamente todas as áreas de uma organização. Partindo-se dessa
premissa, fica claro que o passo
inicial é a concepção estratégica para a abordagem do assunto; é claro também
que essa concepção deve ser alinhada com o planejamento estratégico global.
Estratégia é uma palavra que provoca um certo desconforto em nosso ambiente
empresarial: geralmente evoca visões de de um trabalho árduo, cujo produto
tende a ser rapidamente relegado ao arquivo morto. Não é essa nossa proposta
para e-Business: propomos uma
abordagem prática, rápida, focada em resultados e na realidade do mundo dos
negócios, baseada em passos bem definidos
e principalmente, que possa
ser redirecionada à medida em que o ambiente mude.
Diz
se que “Business” vem antes de “e”.
E-business tem como aspecto mais
importante o negócio, o business: novos modelos de negócio, estratégias e
táticas tornadas possíveis com o advento da Internet e das tecnologias a ela
ligadas. Devemos pensar em e-Business
suportando e atuando de forma alinhada à nossa estratégia de negócios. A
decisão de tomar iniciativas na área deve ser tomada com o entendimento claro
de seu impacto em todos os aspectos do negócio, em especial nos processos, na administração de marcas
etc. Dada essa premissa, fica claro que essas iniciativas devem ser coordenadas
pelas áreas de negócios e não pela área de Tecnologia da Informação (TI) ao contrário do que geralmente acontece.
A área de TI normalmente
assume a condução dos processos porque seus profissionais são treinados e
habituados a coordenar projetos, ao contrário de boa parte dos profissionais de
outras áreas que frequentemente limitam-se a
processar o expediente do dia-a-dia. É verdade que é fundamental a
escolha das soluções tecnológicas adequadas para o sucesso de uma iniciativa de
e-Business, mas também é fundamental
que tecnologia e processos estejam alinhados. Nos anos 90 ficou clara a
importância do bom desenho de processos
e do bom gerenciamento de mudanças para o sucesso dos projetos de implantação
de soluções Enterprise Resource Planning (ERP) – o fato de serem os ERP por natureza sistemas
integrados reforçou essa importância. Quando se fala em e-Business, com a integração indo além das fronteiras da
organização e envolvendo clientes, fornecedores, parceiros de negócios, etc.,
esses fatores se tornam ainda mais importantes.
Há que se lembrar que além dos processos de venda, que
geralmente são os primeiros a serem considerados quando se fala em e-Business, outros como política de
preços, logistíca, etc. devem ser
revistos ou até mesmo criados, e são realmente mais importantes que a definição
da tecnologia a ser adotada.
De qualquer forma, tecnologia é um aspecto extremamente
importante. Uma estrutura sólida, que possa promover adequados tempos de
resposta, facilidade de navegação, alta disponibilidade, etc., é condição sine qua non. Durante o processo de planejamento de e-Business, fatores como a situação dos
atuais sistemas aplicativos, possíveis mudanças de cenário, segurança, suporte
dos fornecedores, prazos, soluções adotadas por parceiros e concorrentes,
compatibilidade com ferramentas e com sistemas já operando e outros devem ser
cuidadosamente avaliados – a prática mostra que nessas ocasiões quase sempre se
leva em consideração apenas preços e um ou outro aspecto, sendo as decisões
tomadas em clima frequentemente apaixonado e de alta pressão.
Voltando ao planejamento: sempre que possível, deve-se
considerar, ao menos num primeiro momento, iniciativas com um escopo bastante
amplo. Analisar toda a cadeia de valor, as interações com clientes e fornecedores, os processos de
desenvolvimento, engenharia e produção, educação de funcionários e parceiros,
aspectos legais e outros. Obviamente, nem todas as iniciativas de e-Business podem ou devem cobrir toda a
organização, mas muitas vezes
restringe-se o escopo do projeto cedo demais, limitando-o a situações
como “precisamos receber pedidos via Internet” ou “devemos estar presentes na Web” – dedicar-se um pouco mais de tempo a este assunto pode
trazer resultados muito melhores, sem grandes investimentos adicionais. Benchmarking pode ser bastante útil
neste momento, e não apenas restrito a casos clássicos de sucesso, como
Bradesco, Amazon, Dell e outros – inúmeras pequenas organizações adotaram
práticas extraordinariamente bem sucedidas.
Um projeto não tem sucesso se as pessoas certas não
estiverem envolvidas. Certas não apenas no sentido de motivadas e preparadas,
mas também no sentido estarem envolvidas as pessoas que ocupam as posições
certas, especialmente aquelas que de alguma forma representem as áreas que
serão mais afetadas pela prática de e-Business.
O nível de envolvimento pode variar, desde aqueles que estarão alocados quase
que em tempo integral ao projeto até aqueles que poderão contribuir fornecendo
informações acerca de seu trabalho e opiniões acerca do que mudar. Aqui cabe uma ressalva: apesar de nossa posição
quanto ao tipo de participação que deve ser reservado ao pessoal de TI, este
deve estar envolvido em todas as fases do projeto, pela sua responsabilidade na
fase de implementação; de pouco vale uma solução brilhantemente concebida mas
mal implementada.
Com o pessoal
certo envolvido, certamente teremos nossa visão de e-Business ancorada na realidade do dia a dia da organização, bem
como uma percepção sólida de seu grau de maturidade e capacidade para enfrentar
os traumas decorrentes das mudanças estruturais e de processo que advirão. Além
disso, aqueles que participarem mais intensamente certamente desenvolverão um
sentido de “propriedade” em relação ao projeto, que deverá contribuir para seu
sucesso. Este envolvimento de pessoas
deve, na medida do possível, ir além
das fronteiras da empresa: clientes e fornecedores podem dar significativa
contribuição.
Nesse campo, não deve ser esquecido aquele que é fator chave
para o sucesso de grandes projetos, que afetam muitas áreas: o patrocínio do
mais alto nível executivo da organização (VENKATRAMAN , 2000)
.
E-Business é algo novo para
a maioria das empresas. Para evitar erros que outros já cometeram e acelerar o
desenvolvimento, quase sempre é oportuno o engajamento de empresas de
consultoria, observados os cuidados de que devem ser cercados a contratação e o
relacionamento com esse tipo de empresa. Já há consenso acerca de algumas
coisas que não devem ser feitas em termos de e-Business, como por exemplo, a falta de sistemas de computação
escaláveis, a “webificação” de velhas práticas de negócio, a criação de ilhas
de e-Business (desenvolvimento de
aplicações de forma descontinuada e não sinérgica), etc. (HARTMAN, 2001).
Além do anteriormente
mencionado, a contribuição trazida pelas mesmas seria importante também no
sentido de:
-
Permitir que o projeto
seja desenvolvido dentro de uma forma metodologicamente correta, com menos
improvisações;
-
Fornecer à direção da
organização pareceres não influenciados por interesses pessoais ou políticos;
-
Incorporar experiência
anterior não só em gerenciamento de projetos na área de e-Business, mas também
em aspectos como TI , reengenharia (e
suas variações), comunicações, marketing, métricas, etc.
Educação é outro aspecto que não pode ser esquecido;
frequentemente as organizações consideram-na apenas um custo mais. Quando se
trata de e-Business, por se esperar
participação intensa dos executivos e funcionários-chave no processo de
planejamento, convém dar aos mesmos uma visão geral do tema antes do início
desse processo, de forma que os mesmos passem a pensar no assunto antes do
efetivo início dos trabalhos e não apenas quando forem chamados a
contribuir.
Informações a
respeito do andamento do projeto, em especial acerca acerca das diversas
alternativas que estão sendo consideradas para deteminado ponto, do que já foi
definido, dos próximos passos a serem dados, etc., devem fluir para o maior número possível de membros da
organização. Isso nos garante feedback
para correção de rumos, identificação de novas oportunidades ou ameaças,
fixação do escopo do projeto, etc.
O processo deve gerar um plano de ação claro, objetivo,
identificando premissas, projetos específicos, cronogramas e recursos
necessários. Devem também constar do mesmo os aspectos referentes à integração
de e-Business na estrutura e em
outros processos da organização, bem como considerar os aspectos técnicos
referentes a TI, que são de grande importância, como já se disse. Se a integração não for tratada de maneira adequada, provavelmente não
será possível atingir-se plenamente os objetivos desejados.
Quase sempre, haverá necessidade de conexão de novos sistemas aplicativos com
sistemas como os ERP (Enterprise Resource Planning), em
especial seus módulos de Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos (Supply Chain Management), CRM (Customer
Relationship Management) e datawarehousing. A escolha desses novos sistemas e a forma
como essa conexão será efetuada são
pontos-chave para o sucesso das iniciativas de e-Business.
Planejamento estratégico não termina, é um processo. No
ambiente empresarial altamente volátil em que vivemos, as iniciativas de e-Business, mesmo quando em plena
operação, devem ser constantemente monitoradas e sofrer ajustes quando
necessário. Nessa linha, devem ser considerados principalmente a estratégia
global da organização, cenário
econômico, ciclo de vida do produto,
desejos dos clientes, iniciativas dos competidores, novidades na área
tecnológica, alterações na legislação, etc.
Concluindo-se, podemos reiterar que investimento em
planejamento, embora relativamente pequeno em termos de tempo e recursos, aumenta as probabilidades de sucesso de uma
iniciativa de e-Business. Muitas
organizações, no afã de aproveitarem-se de janelas de mercado ou adotarem
práticas de administração atualizadas, simplesmente adquirem e colocam em operação
sistemas de computador que julgam ser o estado da arte em e-Business; este quase sempre é o
caminho certo para o fracasso.
BIBLIOGRAFIA
BRETERNITZ,
Vivaldo José Subsídios para um Processo
de Gestão do Conhecimento. Revista
Análise, Jundiaí, n.3, 2001.
HARTMAN, Amir; SIFONIS, John. Pronto
para a Web, Rio de Janeiro: Campus, 2001.
MINTZBERG, Henry. The Rise and Fall of Strategic Planning;
Nova York:Free Press, 1994.
VENKATRAMAN, N. Five Steps to a
Dot-Com Strategy: How To Find Your Footing on the Web. Sloan Management Review, Cambridge, n. 3, 2000